👶 Escala — TIMP

TIMP Test of Infant Motor Performance: Neonatal e Prematuros

Guia técnico do TIMP pra fisios pediátricos: estrutura, aplicação, pontuação, adaptação brasileira e valor preditivo.

O TIMP (Test of Infant Motor Performance), desenvolvido por Suzann Campbell e colaboradores nos anos 1990, é hoje uma das ferramentas mais robustas pra avaliação motora de neonatos prematuros e a termo em UTIN e ambulatórios de follow-up. Sua janela de aplicação — 34 semanas pós-menstruais a 4 meses de idade corrigida — cobre justamente o período em que a maioria das outras escalas motoras (AIMS, Bayley, PDMS-2) ainda não é aplicável ou tem sensibilidade reduzida.

Este artigo é um guia técnico pra fisioterapeutas pediátricos que atuam em UTIN neonatal, unidades de cuidados intermediários (UCIN) ou ambulatórios de seguimento de prematuros: você vai encontrar estrutura do teste, protocolo de aplicação, pontuação por percentil, adaptação brasileira de Barbosa e comparação com AIMS e General Movements (GMs).

O Que É o TIMP e Por Que É Padrão em UTIN Neonatal

O TIMP avalia o controle postural e a orientação seletiva da cabeça, tronco e membros contra a gravidade em posições e manipulações funcionalmente relevantes pra vida diária do lactente jovem. Foi construído a partir de análise de atividades esperadas em um bebê nessa faixa: virar a cabeça pra estímulo visual, orientar-se pra som, ajustar postura quando colocado em pronado, sustentar cabeça em prova de tração e suporte etc.

Diferente da AIMS (que é observacional e mede aquisições motoras grossas dos 0 aos 18 meses), o TIMP é manipulativo e provocativo: o avaliador coloca o bebê em posições específicas, provoca respostas com estímulos visuais/auditivos e táteis, e pontua a qualidade da resposta motora. Isso o torna sensível a alterações sutis de tônus, postura e controle antigravitacional que ainda não se traduziram em atraso de marcos.

É considerado padrão em UTIN por três razões principais:

  • Janela precoce: aplica-se desde 34 semanas PMA, permitindo linha de base ainda no hospital.
  • Sensibilidade discriminativa e preditiva: distingue RNPT com e sem risco neurológico e prevê função motora aos 12 meses (Kolobe 2004; Campbell 2013).
  • Baixa carga fisiológica: aplicação de 25-40 minutos, tolerada bem por prematuros clinicamente estáveis.

Faixa Etária Coberta — 34 Semanas Pós-Menstruais a 4 Meses de Idade Corrigida

A cobertura do TIMP é definida por idade pós-menstrual (PMA) no polo neonatal e por idade corrigida após o termo:

  • Início: 34 semanas PMA — o RNPT já tem estabilidade fisiológica mínima pra tolerar manipulação leve.
  • Idade do termo: 40 semanas PMA (= 0 mês de idade corrigida).
  • Final: 4 meses (17 semanas) de idade corrigida — a partir daí, a maioria dos itens já não discrimina, e a transição pra AIMS é indicada.

Pra ELBW (Extremely Low Birth Weight, <1000g) e VLBW (Very Low Birth Weight, <1500g), sempre trabalhar com idade corrigida até os 2 anos — corrigir também na aplicação do TIMP. Um bebê nascido de 28 semanas avaliado na alta com 36 semanas PMA está sendo avaliado em faixa NEONATAL (não idade corrigida ainda).

Estrutura do TIMP — 42 Itens Observados + 31 Itens Eliciados

O TIMP contém 73 itens no total, divididos em duas seções operacionalmente distintas:

Seção 1 — 42 Itens Observados (Escala Dicotômica)

Registrados durante todo o exame, sem provocação direta. O avaliador observa se o comportamento ocorre espontaneamente em qualquer momento da sessão. Pontuação 0 (não observado) ou 1 (observado). Exemplos:

  • Movimento espontâneo dos MMSS acima do nível do ombro
  • Extensão isolada de dedos
  • Rotação individualizada de cabeça em supino
  • Movimento assimétrico de MMII

Seção 2 — 31 Itens Eliciados (Escala Multipunto)

Cada item eliciado tem sua própria escala ordinal (de 0-4 até 0-6, variando por item). O avaliador provoca a resposta com posicionamento ou estímulo específico e pontua a QUALIDADE da resposta observada. Exemplos:

  • Orientação da cabeça pra estímulo visual em supino (0-5)
  • Alinhamento de cabeça em prova de tração pra sentar (0-6)
  • Sustentação de cabeça em suspensão ventral (0-5)
  • Postura em pronado (0-5)
  • Reação de endireitamento em suporte lateral

A soma bruta pode variar de 0 a aproximadamente 142 pontos, dependendo da versão. O que importa clinicamente não é o escore bruto isolado, mas sua conversão em percentil por idade (ver seção de pontuação).

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Aplicação Prática — Ambiente, Posicionamento, Manipulação do Bebê

Estado Comportamental Ideal

O TIMP deve ser aplicado com o bebê em estado 4 de Brazelton (alerta ativo tranquilo). Se o bebê estiver dormindo, choroso ou com sinais de estresse fisiológico (dessaturação, taquicardia, mudança de coloração), o teste é adiado. Em UTIN, agendar preferencialmente 30-45 minutos após alimentação, evitando período de sono profundo.

Ambiente

  • Sala com temperatura estável (26-28°C pra RNPT em UTIN/UCIN)
  • Iluminação difusa, sem luz direta no rosto do bebê
  • Silêncio relativo — permitir uso de estímulo sonoro controlado (guizo suave)
  • Superfície firme (não a maca acolchoada da clínica — usar tampo firme com lençol fino)

Sequência de Posicionamento

Campbell recomenda ordem que minimiza estresse: começar em supino → decúbito lateral → pronado → prova de tração → suspensão ventral → suporte de sentado → suporte vertical. Bebês instáveis podem exigir aplicação fracionada em 2 sessões.

Manipulação

Manuseio deve ser lento, contínuo, com contenção manual quando necessário (envolvimento). Evitar movimentos bruscos — o objetivo é observar a resposta motora orientada, não uma reação de sobressalto. Registrar sinais de estresse: hiperextensão, dedos em leque, bocejo, soluços.

Pontuação e Interpretação por Percentil

O escore bruto do TIMP é convertido em percentil por idade usando as normas americanas de Campbell (2006, atualizadas 2013). A leitura clínica é a seguinte:

  • > Percentil 25: desempenho dentro da média esperada
  • Percentil 10-25: desempenho abaixo da média — reavaliar em 2-4 semanas
  • Percentil 5-10: desempenho suspeito — indica intervenção precoce e follow-up estrito
  • < Percentil 5: desempenho muito baixo — alto risco motor, encaminhamento pra equipe multi (neuroped) e intervenção intensiva

Um ponto de corte comum na literatura é o percentil 10 como screening pra risco de atraso motor aos 12 meses (Kolobe 2004). Sensibilidade em torno de 92% e especificidade de 76% pra prever escores anormais na AIMS aos 12 meses corrigidos.

Além do escore total, é útil observar dissociação entre observados e eliciados: um bebê com muitos observados positivos mas eliciados baixos pode indicar hipotonia postural com atividade espontânea preservada — perfil diferente de um bebê com baixo em ambos (comprometimento global).

Adaptação Brasileira (Barbosa et al) e Uso Clínico no BR

A adaptação transcultural do TIMP pra português brasileiro foi conduzida por Vanessa Barbosa e colaboradores (2003), com estudos subsequentes de validação em amostras brasileiras de RNPT. A adaptação envolveu tradução, retro-tradução, validação de face e conteúdo com fisios pediátricas brasileiras e verificação de equivalência semântica.

Aspectos práticos pro fisio brasileiro:

  • Normas americanas ainda usadas: não há normas brasileiras formalmente publicadas — usa-se conversão pra percentil com dados de Campbell. Estudos brasileiros (Barbosa 2003, Formiga 2009) mostram distribuição compatível.
  • Certificação: Campbell recomenda treino formal via TIMP Reliability Course. No Brasil, cursos são oferecidos por grupos acadêmicos (UFMG, USP) e por instrutores certificados internacionalmente.
  • Manual e formulário: o manual (Campbell 2013) e o formulário oficial devem ser adquiridos via editora — não usar versões piratas ou adaptações informais, que comprometem confiabilidade.

TIMP vs AIMS vs GMs — Quando Usar Cada em Prematuros

São três ferramentas com propósitos complementares no follow-up de prematuros:

  • General Movements Assessment (GMs — Prechtl): observacional em vídeo de 3-5 min. Aplicável de 32 semanas PMA até 5 meses. Alta sensibilidade pra paralisia cerebral (especialmente ausência de fidgety movements aos 3-5 meses). Não pontua motor em si, mas qualidade dos movimentos espontâneos.
  • TIMP: 34 semanas PMA a 4 meses corrigidos. Manipulativo, quantitativo, sensível a controle postural e orientação. Bom pra graduar risco motor e monitorar evolução em UTIN e primeiros meses.
  • AIMS: 0-18 meses corrigidos. Observacional, mede aquisições motoras grossas em supino, pronado, sentado e em pé. Boa continuidade após saída do TIMP.

Fluxo comum em serviços de follow-up robustos: GMs writhing (32-46 sem PMA)TIMP (34 sem PMA a 4m corrigidos)GMs fidgety (3-5m corrigidos)AIMS (0-18m)Bayley III/IV (2-3 anos). Usar todas em conjunto reduz falsos negativos.

Valor Preditivo pra Desfechos Motores aos 12 Meses

Diversos estudos validaram a capacidade preditiva do TIMP pra desfechos motores no primeiro e segundo ano:

  • Kolobe et al (2004, Phys Ther): escores baixos no TIMP entre 32-49 semanas PMA previram escores anormais na AIMS aos 12 meses corrigidos, com sensibilidade 92% e especificidade 76%.
  • Campbell & Hedeker (2001): demonstraram que a mudança de escore ao longo de aplicações seriadas (não apenas o valor pontual) tem valor prognóstico adicional.
  • Spittle et al (2008, Dev Med Child Neurol): revisão sistemática confirmou TIMP entre as melhores ferramentas discriminativas e preditivas pra RNPT.

Clinicamente, isso significa que um TIMP baixo em RNPT de 36 semanas PMA não é diagnóstico de paralisia cerebral, mas é forte indicativo pra intervenção precoce imediata, follow-up estrito e possivelmente combinação com GMs qualitativo pra estratificar risco.

Combinar TIMP com ressonância neonatal (quando disponível) e GMs fidgety aos 3-5 meses aumenta ainda mais o poder preditivo, permitindo diagnóstico funcional precoce de PC antes dos 5 meses em muitos casos — janela crítica pra neuroplasticidade.

FAQ

Registro estruturado de TIMP e follow-up de prematuros

Se sua clínica atende egressos de UTIN ou ambulatório de prematuros, o Assimetrix organiza escores TIMP, AIMS, GMs e Bayley no mesmo prontuário, com evolução por idade corrigida e gráficos automáticos de percentil.

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Perguntas frequentes de fisioterapeutas

PMA é a soma da idade gestacional ao nascimento + tempo pós-natal em semanas — usada até completar 40 semanas (termo). A partir daí, usa-se idade corrigida (idade cronológica menos as semanas de prematuridade). O TIMP cobre de 34 semanas PMA até 4 meses de idade corrigida. Um RNPT de 28 semanas avaliado 8 semanas depois está em 36 semanas PMA, ainda em faixa neonatal.
Formalmente, Campbell recomenda o TIMP Reliability Course pra garantir confiabilidade inter-examinador. Aplicar sem treino formal é possível pra uso clínico interno, mas escores não devem ser usados em pesquisa ou laudos comparativos entre serviços sem certificação. No Brasil, grupos acadêmicos (UFMG, USP) oferecem treinamento periódico.
Não. O TIMP exige estabilidade fisiológica mínima (SatO2 e FC estáveis à manipulação leve) e estado comportamental de alerta ativo tranquilo (estado 4 de Brazelton). Bebê intubado, em CPAP com desconforto, com sinais de estresse ou dormindo profundamente contraindica a aplicação. Adiar até estabilização.
Padrão em serviços de follow-up: 1 aplicação basal próxima da alta da UTIN (idealmente 36-40 sem PMA), reaplicação em 40-44 sem PMA e depois mensalmente até 4 meses de idade corrigida. Reaplicações seriadas têm valor prognóstico maior do que uma única medida — permitem observar trajetória (mudança de percentil).
Entre 25 e 40 minutos por aplicação. Depende do estado do bebê, familiaridade do avaliador e necessidade de pausas por sinais de estresse. Em RNPT muito pequenos ou frágeis, pode ser necessário fracionar em 2 sessões no mesmo dia ou em dias consecutivos.
Não. São complementares. TIMP cobre 34 sem PMA a 4 meses corrigidos e avalia controle postural manipulativamente. AIMS cobre 0-18 meses e avalia aquisições motoras grossas observacionalmente. O fluxo ideal é aplicar TIMP no período neonatal e primeiros meses e migrar pra AIMS dos 4 meses em diante, mantendo continuidade da avaliação.
Não. Um escore muito baixo é indicativo de alto risco motor e demanda intervenção precoce, follow-up estrito e combinação com outras ferramentas (GMs fidgety aos 3-5 meses, ressonância neonatal quando disponível, exame neurológico seriado). O diagnóstico funcional de PC exige convergência de sinais e observação de trajetória, não escore isolado.
Não há normas brasileiras formalmente publicadas até o momento. Usa-se conversão pra percentil com as normas americanas de Campbell (2006, 2013). Estudos brasileiros (Barbosa 2003, Formiga 2009 e outros) mostraram distribuição compatível em amostras nacionais, o que dá suporte razoável pra uso clínico com as normas originais.

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